terça-feira, 7 de agosto de 2012

Concurso Literário "Escritores do Clube": A Bruxa de Christchurch

Confiram mais um conto participante da promoção cultural "Escritores do Clube" que rolou por aqui no mês passado.


A Bruxa de Christchurch

As histórias eram muitas e em sua grande maioria, aterrorizantes. Por mais que as intenções de um bruxo fossem boas, ele não seria aceito pela sociedade, especialmente em Christchurch, Nova Zelândia. Ninguém gostaria de bater defronte de um bruxo nas ruas da cidade. Numa época antiga, alguns séculos atrás, bruxos eram criaturas odiadas por todos.
Susan Fettin é uma bruxa poderosa, amável e confusa sobre si. Bruxos são bem mais parecidos com os civis do que todos imaginam, são separados apenas pela barreira do poder. Existiram bruxos maus e bruxos bons, mas para os moradores de Christchurch bruxo bom é bruxo morto. Devido às circunstancias Susan decidiu não ser má. Não lhe agradava a ideia de tomar proveito de suas habilidades sobre as pessoas comuns, ou alimentar seus desejos com magia. Ela queria ser “normal”.
Susan adorava crianças, então, para esconder sua real natureza, aceitou um emprego como babá de duas crianças. Passou a trabalhar para os Walker, uma família bem sucedida e influente na cidade. Moravam em uma pequena fazenda nas extremidades de Christchurch. Uma das crianças se chamava Tony e tinha apenas cinco anos de idade. A outra criança se chamava Lily, uma linda garotinha de apenas um ano. A família era um tanto conturbada. Os pais, o Sr. Jhon Walker e a Sra. Mariah Walker, apenas se preocupavam com o seu trabalho, tinham alguns pontos comerciais espalhados pela cidade. Não davam muita atenção aos seus filhos, embora não faltasse amor e afeto. As crianças passavam dia e noite com Susan. Elas a amavam, amavam mais até que aos seus pais. Tony passou a chamar Susan de mãe, se alguém perguntasse a Tony de quem ele gostava mais ou com quem preferiria estar, certamente ele responderia mamãe, ou seja, Susan.
Para Susan foi fácil conquistar as crianças. Bruxas eram criaturas instáveis, por mais que não gostasse da ideia de utilizar seus poderes para ter vantagem, ela sempre fazia truques ou agradava as crianças com magia. Um brinquedo ou uma comida saborosa era só pensar, fazer alguns gestos, recitar palavras e pronto.
- “Mamãe, mamãe”! – disse Tony eufórico – quero um doce!
- Arrumou a cama hoje? – Perguntou Susan carinhosamente enquanto colocava a frauda de tecido em Lily.
- Sim, mamãe! – Respondeu ansioso.
- Então tudo bem! – Ao lado de Lily, que estava deitada sobre uma mesa, Susan gesticulou rapidamente e recitou uma frase em algum idioma antigo. Surge então um pequeno prato de louça com um delicioso pedaço de doce de morango.
- Aqui está – posicionou-se defronte ao garoto estendeu a mão, entregou o doce, em seguida curvou-se e o beijou na testa.
Susan amava as crianças mais que a se mesma, daria sua vida por qual quer uma das duas. As crianças igualmente a amavam, a obedeciam e recorriam primeiramente a ela sempre que desejavam algo. Os pais eram um tanto “estranhos” para Tony e Lily. Esse “amor” passou a incomodar intensamente Mariah e Jhon, as crianças não mais retribuam o carinho e o afeto da forma que era de se esperar que filhos tratassem os pais.
Mariah e Jhon eram egocêntricos e gostavam da atenção voltada para eles. Quando os filhos passaram a tratá-los com descaso, Mariah sentiu-se ameaçada, então decidiu passar mais tempo em casa, com as crianças. Ela queria diminuir o amor incomodo que as crianças sentiam por Susan.
Certo dia, por volta do fim da tarde, Susan foi passear com Tony, Lily ficou com Mariah em casa. Mariah a pôs pra dormir e foi observar a casa. Ao passar pela cozinha próximo aos aposentos de Susan, ela encontrou um livro marrom de capa dura, aparentemente um livro bem velho. O livro estava bem próximo aos aposentos de Susan, provavelmente colocou lá por descuido.
- Há! – Espantou-se Mariah ao ler a contra capa do livro – “O livro das Bruxas”.
O livro estava repleto de símbolos estranhos e palavras em línguas diferentes. - Não pode ser! Susan é uma bruxa.
Não se tinha relatos de bruxos, magos ou criaturas do tipo há muito tempo em Christchurch. Ela ficou pálida, não podia acreditar que uma bruxa estava responsável por seus filhos. Ela respirou fundo, ouviu o som de passos. Virou-se com o livro na mão. Lá estava Susan, parada, fitando-a. Mariah se assustou ao vê-la, o pouco de cor que restava em seu rosto desapareceu. Susan ao perceber o livro nas mãos de Mariah se assusta, arregala os olhos e alterna rapidamente o olhar entre os olhos de Mariah e o livro em suas mãos.
            -Você... Você é uma bruxa? Perguntou Mariah gaguejando e aterrorizada.
Ambas ficaram em silêncio. Uma encarava a outra.
            - Fora da minha casa, demônio! – Vociferou alterando a expressão de sua face.
Susan não sabia o que fazer. Poderia usar magia e controlar a situação, mas preferiu fugir. Saiu correndo da casa sem rumo, estava confusa.
            Alguns minutos depois, as pessoas atacaram à casa de Susan, que se localizava na rua paralela a fazenda dos Walker, a notícia havia se espalhado muito rapidamente. Todos os seus objetos pessoais, livros, frascos e outros foram lançados numa fogueira montada em frente a casa. Estava destruída, restavam apenas algumas paredes levantadas.
            - Fora de nossa cidade, demônio! – Gritou um dos que atacavam a casa.
Durante semanas, meses Susan foi perseguida, atacada, sua vida tornou-se insustentável. Contudo ela não foi capturada.
            Tempos depois, Mariah encontrou um bilhete próximo de sua casa. “Você destruiu minha vida, espero que goste da dor”. O recado estava escrito em um papel velho, manchado e sujo! “Susan” pensou Mariah. O desespero tomou conta do seu corpo, correu para dentro da casa e mostrou o bilhete a Jhon tremendo.
            - Vamos ter que sair da fazenda. – disse Jhon aflito – da cidade... Vou resolver algumas pendências e amanhã viajaremos.
            Embora Susan fosse de boa índole, quando contrariada poderia simplesmente ignorar seus valores caso isso lhe convier no momento. Assim fez. Ela queria estar com as crianças e iria fazer de tudo pra que isso acontecesse.
            Mariah e Jhon Walker pretendiam fugir no dia seguinte. Estavam assustados, mas não sabiam que o dia seguinte era tarde de mais.
            A noite chegara. As crianças estavam dormindo. Mariah terminava de arrumar as malas. Jhon trocava de roupa, pois acabara de sair do banho. Os dois ouviram um barulho estranho vindo da cozinha. Mariah virou-se para fitar Jhon.
            - O que foi isso?! – Perguntou Mariah extremamente assustada.
            - Não sei, vou ver. Fique aqui. - Disse Jhon determinado, porém com medo.
Jhon desce do seu quarto que ficava no primeiro andar da casa. Mariah escuta um grito alto e rouco. Era Jhon. Ela entra em pânico. E Corre para o quarto das crianças que fica no mesmo andar. Tranca a porta e aguarda aflita. Ela ouve um leve som de passos. Surge um brilho na fechadura, a maçaneta gira e a porta abre lentamente. Mariah está a ponto de um infarto. Ela pega as crianças, que acabam acordando e começam a chorar. Surge Susan de olhos negros e de má expressão.
            - Se arrependerá por tudo que me fez. Disse Susan com uma voz assombrosa.
            Antes que Mariah pudesse dizer alguma coisa, Susan estende a mão e começa a falar em uma língua estranha. Movimenta os braços e mãos lentamente. Mariah grita alto de dor, solta as crianças e começa a levitar. Senti-se sufocada, suas veias tornam-se visíveis. As crianças choram dramaticamente. Mariah começa a sangrar, Susan continua a falar em outra língua e gesticular, agora com mais velocidade. Mariah grita bem alto e cai dura no chão. Está morta.
            A fisionomia de Susan volta ao normal. Ela se aproxima das crianças, que choram mais suavemente em gemidos.
            - Vamos sair daqui? – Perguntou Susan, sorridente, com uma voz doce e delicada, agachada em frente às crianças. Tony ainda assustado balança a cabeça positivamente. Ela pega Lily no braço, segura a mão de Tony e vai embora.
            Nunca mais se ouviu falar de Susan ou das crianças!
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