domingo, 5 de agosto de 2012

Concurso Literário "Escritores do Clube": De uma Vampira a Quem Possa Interessar...

Confiram mais um conto da galera que participou do 1º Concurso Literário "Escritores do Clube":


De Uma Vampira a Quem Possa Interessar



1
Ontem, acordei com um pouco de dor de cabeça sem saber o que estava acontecendo. Ao meu lado sentado no chão, estava ele, de olhar sombrio e um sorriso diferente de todos que já havia visto em minha vida. Parecia um lobo faminto com as presas sujas de sangue.
- Você recebeu a graça do senhor da escuridão – dizia ele com uma voz desanimada e um sorriso perverso. – Senhor esse que irá te ajudar nesta tua vida sofrida, todas as dores da tua alma ele irá cicatrizar, e nada mais terá importância, por que neste corpo teu não habita mais alma alguma.
Fiquei confusa, e sentia dores por todo o corpo, mas havia um local que a dor parecia interminável, era o meu pescoço, estava ardendo e queimava como brasa. Passei a mão e percebi que a dor não era em vão, estava sangrando e senti que havia furos naquela região.
– Isso não é nada. – disse ele ao se levantar – Deverá sarar antes que digas teu próprio nome.
E foi o que aconteceu. Ele se levantou e com tamanha rapidez já estava com o rosto encostado a minha pele, senti quando ele passou a língua em meu pescoço, bem na ferida e em um segundo depois nada mais havia ali, nem feridas, nem sangue. E com a mesma rapidez que se levantou ele se afastou e ficou parado olhando para mim.
 Ele começou a falar e suas palavras ecoavam em minha cabeça. Explicou-me no que eu havia me transformado. Um ser da noite, um vigilante do mal, uma criatura possuidora dos dotes maléficos.
O dia havia acabado para mim, não poderei mas ver o brilho das manhãs, só a noite poderia despertar para os meus olhos.
Quando escureceu despertei do meu sono, um pouco cansada admito, e faminta. Estou escrevendo essa carta para tentar desviar meus pensamentos, ainda estou tentando acreditar no que sou, no que me transformei, mas não estou aceitando.
Eu soube naquele momento que nada mas seria comum novamente, havia me tornado uma vampira.
2
Mas aqui estou eu de volta. Desde a minha primeira carta venho pensando muito em como farei para aceitar o que sou.
 Sim, voltei a escrever depois de alguns dias porque não entedia o que se passava em minha vida, comecei a compreender a pouco tempo. Não pedi a imortalidade que tantos desejam e sim, pedi para superar a dor que consumia o meu peito, mas os deuses não me ouviram, e sim o Lúcios, que entendeu o meu suplico de forma estranha e assustadora. Não desejo essa vida nem as piores almas. Mesmo por que isto não é vida, a muito que a vida não existe neste corpo que levanta esta pena para escrever mais uma carta desprovida de sentimentos.
Não sei ao certo quanto tempo se passou desde a minha transformação, mas é como se tivesse passado toda uma vida, desde a infância até a velhice, e depois retornando a ser criança para então envelhecer novamente. Os dias passam e a eternidade me parece algo insuportável.
Passei muito tempo deitada, aceitando o que me era dado para saciar a fome, uma fome sem fim. Lembro-me da primeira noite em que puder sentir no que se baseava a minha fome. Ou seria sede?
Estava em minha cama, a mesma cama que dormia quando ainda era viva, e o Lúcios veio me visitar, não poderia deixar de mencionar o quão belo era aquele ser apesar de todo o medo que nutria em meio peito por aquela criatura, que até aquela noite ainda era bastante desconhecida para mim. Ele me transformou no que sou hoje.
O Lúcios veio andando lentamente, como quem valsa, se aproximou de mim e perguntou – A criança tem fome, sente vontade de beber algo? Sua voz parecia uma melodia da qual eu poderia passar a noite ouvindo e ainda assim não me cansaria de me inundar com aquele som maravilhoso. Mas havia algo na pergunta dele que realmente chamou minha atenção, eu estava com fome, muita fome, mas não tinha vontade de comer nada. Mas ele parecia ouvir tudo o que eu estava pensando e se aproximou de mim, se ajoelhou no chão ao meu lado na cama e trazia em uma de suas mãos uma taça de cristal, que brilhava e cintilava contrastando com o líquido escuro que jazia dentro dela. Eu senti o cheiro e quase por impulso senti meu corpo se erguer e mais rápido do que a minha mente pode acompanhar eu já estava aos pés de Lúcios, olhando paralisada a taça e desejando sentir o gosto daquele líquido que me parecia muito com vinho, mas, sabia desde o momento que coloquei meus olhos nela que o cheiro era muito melhor que vinho, era uma aroma diferente de tudo que já havia sentido em minha vida. Segurei a taça e Lúcios não fez objeção aos meus movimentos, apenas sorriu e fez um sinal com a cabeça como quem indica para continuar a fazer o que já havia começado, a esta altura minhas mãos já envolviam aquela taça e minha boca sentia pela primeira vez o gosto do sangue humano. Não fazia ideia de como era maravilhoso e saboroso aquele líquido. E assim se seguiu, noite após noite, ele vindo me visitar, eu permanecia deitada em minha cama, mas ele vinha, todas as noites e me alimentava. Meu despertar passou a ter um propósito, me alimentar.
3
Ontem à noite o Lúcios veio até a cama e me pediu para levantar e me arrumar pois íamos dar um passeio. Ele estendeu a mão em minha direção, foi quase como se ele implorasse, mas ele nem abriu a boca, eu já estava em pé, ao seu lado segurando sua mão e olhando em seus olhos. E então ele falou – vista o que está sobre a cama. E depois de terminar a frase ele soltou a minha mão e saiu do quarto, não tão rápido como das outras vezes, pude ver que quando estava perto da porta do quarto ele voltou à cabeça em minha direção e depois saiu.
Havia uma enorme caixa branca sobre a minha cama, abri e lá estava um belíssimo vestido. Eu sabia que era um vestido nobre. Era de um tom perolado com muitos bordados em fios prateados quase imperceptíveis a primeira vista, mas que davam um ar de diamante a todo aquele corpete. Um grande decote com fitas cruzando de um lado para o outro nas costas. Tirei da caixa e o vesti, ele era perfeito para o meu corpo. Fui até a sala. Em pé, ao lado das poltronas de chá estava o Lúcios, sempre impecável, com sua cabeça erguida como quem espera ser atacado a qualquer momento, sempre em alerta. Quando entrei senti uma brisa invadir meu peito e passar pelos meus ombros nus. Os olhos de Lúcios vieram de encontro a mim e percorreram aquela criatura que a muito não se levantava da cama, eu.
Não sabia se estava bem vestida ou não, mas sabia que ao entrar naquela sala alguma coisa tinha mudado. Então Lúcios veio até mim, segurou minha mão direita e a ergueu até seu lábio e a beijou.  Que lábios macios e carnudos, tive a sensação de sentir a sua boa se abrir de encontro a minha mão como quem se prepara para dar uma mordida, mas acho que foi apenas impressão. Eu podia sentir leves ondas de emoções, eu sabia que podia sentir o que os outros estavam sentindo, isso começava a explicar a estranha sensação de vento que estava sentindo sempre que Lúcios se aproximava de mim e me tocava, por mais leve que fosse esta aproximação física.
Em meio aos meus pensamentos Lúcios me interrompeu e me chamou
- Vamos criança. Sim, era assim que Lúcios sempre me chamava, desde a primeira noite.
O silencio se fez presente em boa parte do passeio. De repente a carruagem parou, estávamos em frente ao castelo de Melícias, uma estrutura magnífica com três enormes torres e uma ponte sobre um rio que circundava toda a construção.
O castelo parecia uma ilha rodeada de todo aquele rio escuro e belo, cheios de árvores ao fundo e muitas esculturas espalhadas por todo o jardim da frente. A entrada estava repleta de castiçais que formavam um corredor até a ponte e sobre ela formando um caminho, nos guiando até o portão principal de entrada. Tudo estava perfeitamente harmonizado, exceto eu, pobre imortal, que não fazia a mínima ideia do que me aguardava lá dentro.
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