quarta-feira, 25 de julho de 2012

Concurso Literário "Escritores do Clube", Luz Negra

Olá gente, tudo bem???
A partir de agora iremos postar os contos que se inscreveram. 
Vamos prestigiar a todos os candidatos postando seus contos.



Luz Negra

Minha cabeça doía mais que o normal. Era comum ela estar sempre doendo, pelo feito de minhas lutas e quedas. Eu podia sentir as feridas abertas em meus braços e em meu peito. Podia sentir o sangue fresco escorrendo delas e manchando o linho branco de minha camisa. Onde eu estava? Onde estava Lucynda? Tentei me levantar, mas a dor em minha cabeça era insuportável, parecia me puxar para baixo. Mas eu precisava reunir minhas últimas energias por ela, para salvá-la da loucura de Dorothea. Fechei os olhos com força e forcei meus membros a agirem, a se levantarem. Ao finalmente me por de pé, avisto Lucynda desacordada sobre a mesa de pedra. Suas mãos estavam amarradas nas extremidades da mesa. Corri ao seu encontro, as feridas ardendo pelo esforço, mas meu consciente não parecia se importar. Porém, não tinha dado nem vinte passos quando me deparo com uma parede de vidro. Analiso-a, minha mão se retesando ao toque. Não era vidro. Era energia. Arte das trevas, magia negra. E só uma pessoa poderia ter usado, e eu sabia muito bem quem era.
Ao olhar para o lado me deparo com Dorothea. Os olhos estavam profundos pelas olheiras das noites passadas em claro, e pela maquiagem preta que sempre usava. Os lábios estavam cobertos pelo batom preto e sua figura esguia trajava um vestido escuro como o breu. A figura em si de Dorothea era admirável, mas seu interior era tão sujo quanto os esgotos que habitam o subsolo da cidade. Sua alma era negra e possuída pela magia que ela só usava para o mal.
-Mas veja só, se não é o corajoso Gabriel. Está ferido meu querido? – Sorriu ela diabolicamente.
Eu podia sentir o ódio por aquela mulher ferver em meu sangue.
-Você que me feriu. Pensei que me amasse Dorothea. – Ela correu até onde eu estava e se ajoelhou em minha frente, nossos rostos próximos. Suas mãos tocaram minha face, mas me virei para longe de seu toque.
-Eu o amo Gabriel. Demais. Mas não posso demonstrar meus nobres sentimentos em relação a você, com Lucynda saltitando feliz por aí, relatando o quão bom é estar em sua companhia. O quão doce são seus beijos – Suas mãos buscaram meu rosto. Seus dedos desenharam o contorno de meus lábios. Seus olhos eram de uma pessoa que precisava de tratamento. – Ela precisa ser destruída. Eu preciso ter seu coração. Só assim você poderá me olhar como eu desejo meu querido.
-Você está louca! Não pode matar Lucynda, nenhum mal ela te causou! – Gritei para ela, e isso pareceu acender ainda mais sua raiva. Seu rosto se fechou numa expressão de ódio profundo, e ela se levantou, andando apressadamente para longe de mim, perto demais de Lucynda. Dorothea subiu as escadas, aproximando-se da mesa de pedra, onde parou e ficou olhando para o corpo inerte de minha amada.
-Você se recorda Gabriel, o quanto você me amava? O quanto éramos felizes.
-Aquilo não era amor – Falei, esforçando-me para levantar.
-Era sim. Só bastou Lucynda aparecer na cidade e você morrer de amores por ela. O que você encontrou nessa garota? Ela não tem nada, nenhum poder especial. Nenhuma beleza extraordinária. O QUE VOCÊ VIU NELA? – Gritou ela descontrolada. Seu corpo se agachou e buscou algo embaixo da mesa. Era uma adaga.
-Não! Não faça isso Dorothea. – Implorei, tentando de alguma forma passar pela barreira de energia que ela tinha colocado ali, separando-me dela e de Lucynda. Eu tinha que pensar em algo. E pensar rápido. Dorothea pousou a ponta da adaga na barriga de Lucynda, e subiu por seu corpo, parando em seu peito. Meu coração ia diminuindo à medida que a adaga avançava. Dorothea deu uma olhada em mim.
-Irei ceifar a vida dela. Comer seu coração puro. Assim terei seu amor para mim, e poderemos viver nossa história.
-Se você continuar com essa loucura, tudo o que vai ter de mim será o ódio. – Mas ela não me escutou, continuou a pressionar a adaga, agora com mais força sobre o peito de Lucy. – Eu fico com você.
O olhar de Dorothea subiu imediatamente, e seu olhar encontrou o meu. Ela largou a adaga com facilidade e desceu as escadas de forma desumana. Suas mãos se moveram para frente, tirando o campo de força, enquanto a outra me puxava para perto de si. Seus lábios se encontram com os meus, em um beijo selvagem, tirando-me o ar. Era a minha hora de agir. Puxei-a de encontro ao meu corpo, mantendo-a junto a mim o máximo possível. Minha mão, com todo cuidado, foi para minhas costas, onde no cós da calça se encontrava a faca que meu pai, Stephen, tinha me dado. Ainda me recordava de suas palavras: “-Nunca se separe dela meu filho. Ela irá te ajudar nos momentos de maior desespero.”. Ao segurar em seu cabo frio a movi e empalei as costas de Dorothea, mas não fui rápido o suficiente. Senti minhas mãos virarem. Os ossos se quebrarem, deixando ali uma dor lacerante, deixei a faca cair. Dorothea ria de minha desgraça.
-Pensa que sou idiota? Você não tem mais a força que costumava ter meu querido. E foi por isso, que cortei as suas asinhas tão preciosas. – Olhei com profundo temor, amaldiçoando-a por ter arrancado as minhas asas. – Você não vai conseguir me matar querido. Os seus tempos de glória foi há milhares de anos, Gabriel.
Eu já estava me conformando com a minha desgraça. O que ela falava era verdade, eu não conseguiria derrota-la. Estaria amaldiçoado para sempre a viver ao lado de uma feiticeira louca, e perder o meu grande amor. De que tinha adiantado todos os nossos momentos? Lucynda tão bela, seus olhos castanhos tão profundos que me prendiam tão facilmente, seu toque tão suave, seus lábios tão doces contra os meus. Ah, minha Lucynda, de que adiantaria todo meu amor por você, se eu estava agora destinado a viver ao lado de uma louca que estava prestes a possuir o seu puro coração?
Dorothea continuava a me olhar, em toda a minha desgraça. Levantei minha cabeça para poder encará-la, e quase que meu coração para de bater. Atrás de Dorothea estava Lucynda, seu dedo indicador sob os lábios, um sinal para que eu ficasse quieto. A adaga que antes estava sob seu coração, agora estava em sua mão, e ela não hesitou em enfiá-la com firmeza no pescoço de Dorothea, que abriu a boca, dando um último suspiro assustado, por ter sido pega de surpresa. Seu corpo tombou para frente, caindo sobre o meu. Tirei-a de cima de mim, e me levantei surpreso por ver Lucynda acordada, viva em minha frente.
-Como... Como isso aconteceu? – Perguntei, tocando-lhe a face, e distribuindo beijos pela mesma. A melhor sensação do mundo era sentir sua respiração em minha pele, poder ouvir sua risada.
-Seu amor por mim, me despertou para a vida, novamente. Você me salvou. – Disse ela segurando meu rosto entre suas mãos.
-Não, você me salvou. Eu estava prestes a ser condenado a uma vida miserável sem você e...
-Shh – Sussurrou ela, seu dedo impedindo-me de falar. – Então, salvamos um ao outro. – Fui obrigado a concordar. Nossos lábios se encontraram e ao me separar rapidamente dela, vi seu sorriso e sorri ao vê-lo. Ele era a luz que iluminava meus dias escuros, e que continuaria a iluminar pelo tempo que fosse preciso.
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