quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ENTÃO EU ASSISTI... TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS

Filme: Tudo Que Aprendemos Juntos
Lançamento: 03 de Dezembro de 2015
Elenco: Lázaro Ramos, Hermes Baroli, Fernanda de Freitas, Criolo...
Diretor: Sergio Machado
Distribuidora Brasileira: FOX Filmes
Nota: 

Então eu assisti... Tudo que Aprendemos Juntos ou Uma Pequena E Brilhante Ode Ao Sangue Que Corre Em Nossas Veias.
Talvez você não esteja familiarizado, mas não é incorreto dizer que isso é o novo filme Estrelado por Lázaro Ramos. Uma montagem que o cinema brasileiro não está familiarizado. Uma pintura que sobrepõe o fino orquestral à grossura das paredes da favela, a delicadeza dos takes dos atores mirins às tomadas em plano aberto com os principais personagens da história.
Resumindo, um concerto completo.
Pode ser estranho começar uma crítica de uma maneira tão poética – e se eu consegui fazer bem, melodiosa – mas Tudo Que Aprendemos Juntos merece, assim como tantos novos representantes do grande circuito de cinemas desta nova leva de obras que deram o ar da graça nos últimos anos, acima de tudo, ser assistido.
Longe de passar despachando uma comédia fácil e simples de ser vendida, o filme (Um filme de Sérgio Machado, mesmo diretor de Cidade Baixa e Abril Despedaçado, entre outros ) é um drama, que apesar de começar com uma trama muito simples, até mesmo batida – Um violinista talentoso falha em passar numa importante prova de uma orquestra, e, abatido, vai dar aulas de música num ambiente hostil onde consegue encontrar um talento que luta para retirar do mundo do crime e inspirar para um novo caminho na vida – ganha novos tons, pinceladas e notas com o decorrer do filme.
Seja por sua faceta paralela ao mundo real – A história é dita que baseada em fatos reais, nos eventos que culminaram na criação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis – A evolução da história segue caminho e construção bem diferente da deste tipo de obra, muitas vezes drama raso, recheado com clichés e maquiagens bizarras sobre o tipo de realidade que vivemos. Os personagens, mesmo que sem as maiores das construções, são críveis em si. Os estudantes do colégio são muito mais do que simplesmente garotos rebeldes porque sim, que mudam misteriosamente de atitude apenas pela presença de seu inspirador educador. Não. Temos aqui gente que nos diálogos presentes, às vezes conversas, às vezes discursos vigorosos, mostram uma vida além-música e paredes de colégio, as dificuldades que enfrentam para chegar a seu cantinho musical. Nem sempre a reprodução do sentimento é perfeita. O filme sofre, infelizmente, com a falta de tempo e diálogos de outros personagens já que normalmente a tela foca principalmente em Laerte (Lázaro Ramos, fazendo bem o seu papel de mentor em sua face mais séria) e nos dois não-atores mirins, mesmo em momentos onde apenas o ruído de fundo é utilizando em cena para desdobrar a sensação de solidão dos personagens.
Mesmo assim, aí se esconde um dos trunfos mais bonitos do filme – embora esperado, já que se trata de uma história em seu cerne sobre o poder transformador da música. O preenchimento que a trilha sonora trás ao filme é compensador, lindo e forte, se conectando ao espectador muito bem. Das peças de orquestras ao Hip Hop e Rap de periferia, vindo diretamente da favela, com os ruídos e silêncios usados com primor entre eles, Tudo Que Aprendemos Juntos torna-se um deleite aos sentidos. A história conecta-se facilmente quando um diálogo inteiro é fácil e habilidosamente substituída por uma linha de melodia. E neste ínterim, o ponto de vista sobre o rumo da história termina por mudar também. A priori a favela, normal condutora de violência, ou os personagens normalmente retratados como pivôs das tensões familiares se transmutam: Não vemos aqui o ambiente infernal que normalmente nos retrataram em outros filmes. Heliópolis é periferia, é favela, mas acolhe e ensina, luta pra cuidar dos seus. Não existe o pai bêbado dentro de casa – embora a violência ainda esteja lá, travestida de um amor que não é saudável a quem o experimenta.
E de uma forma surpreendente, todas essas texturas se unem, todos esses personagens se interferem de uma maneira surpreendente ao que culmina no clímax da história, um resultado que fere a quem assiste de uma maneira sensível, provando a tentativa do diretor de tornar seu filme menos drama da vida televisiva, mais drama da vida real.
Tudo Que Aprendemos Juntos não é um filme perfeito. É comercial enquanto baste, e tem os elementos que se espera de um drama inspirador, mas também consegue ser inventivo e surpreendente em seu próprio jeito, fazendo do telespectador experimentar diferentes ritmos e batidas, pensamentos e reflexões enquanto assiste à obra. Deixa de ser um simples filme bobo e cliché sobre superação e abrem bons caminhos a emoção ao mesmo tempo em que dialoga: Onde está o mundo grande dentro do pequeno mundo da favela? Onde está você no ato de fazer a diferença. E assim, torna-se um filme poderoso e ímpar em suas limitações.
Tal qual um som misturando Música Clássica e Hip Hop.

Assista ao trailer:


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