terça-feira, 24 de julho de 2012

Concurso Literário ‘Escritores do Clube’ , 2º lugar: O Corvo da Cruz de Lenho

Confira o Conto que ganhou em Segundo lugar no
Concurso Literário "Escritores do Clube".

O corvo da Cruz de Lenho

Se você nasce como membro da Cruz de lenho, não te resta opção além de lutar. A nossa Sociedade – ou, como preferimos chamar, clã – caça Strigois e os destrói. Desertores tornam-se automaticamente inimigos piores do que as próprias criaturas sobrenaturais que caçamos, pois sabem demais para continuar sobrevivendo entre humanos inábeis. Foi neste meio sem escolha em que eu nasci. O posto de comandante ocupado pela minha mãe, Brianna, foi-lhe atribuído após o meu avô ser derrotado durante uma caçada, mas não antes de passar para ela todos os antigos segredos que são confiados apenas ao comandante. A honra e o dever de ser líder são hereditários, por isso, o mesmo destino irrefutável que tornou a minha mãe uma pessoa fria e distante está reservado para mim.
É comum que membros da Cruz de lenho relacionem-se para “manter a linhagem” confiável e para que não seja preciso revelar o nosso posto para pessoas comuns, mas, ainda assim, o segredo sobre quem é meu pai é guardado a sete chaves por Brianna. Foi durante uma discussão sobre esta incógnita que o meu destino, que eu pensava já estar selado, mudou completamente.
O meu 16º aniversário começou com uma fria manhã de inverno, na qual as nuvens encobriam o parco sol que deveria nos aquecer, tornando a sensação térmica ainda mais insuportável. Como acontece de segunda a sábado, levantamos de nossos colchonetes (postos sobre armações de metal para evitar a friagem do chão) e nos dirigimos à tenda que serve como copa. Vivemos como nômades, pois seria muito perigoso fixarmo-nos em um único local que poderia ser descoberto pelos Strigoi, tornando-se assim um alvo fácil para um ataque em massa. A caminho da copa, passo na barraca da minha mãe para aproveitar o pouco tempo que temos de privacidade. “Mãe?” Chamo enquanto abro o zíper. Assim começa a quarta-feira.
- Ravenna, parabéns por mais um ano de combate viva, mas você sabe que não pode me chamar assim. Aqui eu sou a comandante, e o que importa é a união de nossas almas, não os nossos laços sanguíneos.
- Eu sei, mas eu sinto falta de uma família.
- Você não pode sentir falta de algo que nunca teve, querida. – respondeu ela da maneira mais delicada que o posto de líder lhe permitia.
- Ainda assim, quero saber as minhas origens. Por que você nunca fala sobre o meu pai? Será meu presente de aniversário! – não consegui evitar a apelativa.
- Você conhece a sua ascendência. Obteve a dádiva de ser treinada pelo seu avô, o maior Comandante que este clã já teve. É tudo o que você precisa saber. Seu pai não é importan... – Brianna foi interrompida no final da frase pelo barulho do sino de alerta soando, indicando que um Strigoi fora capturado. Quando saímos, nos deparamos com quatro de nossos combatentes
carregando dois imortais estaqueados. O som de seus passos firmes e apressados nos guiou até a sala de extermínio.
Adentramos na sala e a primeira coisa em que reparo é nos cabelos sobre a maca. O ruivo dos Strigoi é característico devido a sua vivacidade contrastante com o resto do corpo frio. A pele excepcionalmente branca, os lábios avermelhados e os dentes caninos proeminentes dificilmente passam despercebidos, assim como o vermelho dos olhos. Entretanto, embora seja fácil identificá-los, capturar e derrotar um Strigoi é tremendamente difícil devido às vantagens físicas dos mesmos, que incluem velocidade e força excessivas, além da capacidade de se transformarem em animais e, nos primeiros anos após a transformação, ficarem invisíveis. Por isso a Cruz de lenho se ocupa dessa tarefa há séculos; afinal, mandar um morto-vivo definitivamente para a terra dos mortos requer muito treinamento. Minha mãe me disse que os Strigoi são conhecidos pelos outros humanos como vampiros, porém a noção deles é limitada e muitas vezes errônea. Para matar um strigoi não basta estaqueá-lo, você precisa queimá-lo. As estacas, se cravadas exatamente no coração, apenas imobilizam os mortos-vivos, e eles são repelidos e afetados por cruzes e água benta desde que a sua fé seja verdadeira, conferindo, assim, poder aos objetos sagrados.
Marge e David, o casal que estava montando guarda e foi responsável pela captura dos dois homens mortos-vivos, nos disseram que os strigoi caíram em uma armadilha montada ao redor do acampamento enquanto espionavam-nos. Após amarrar os dois strigoi pelos pulsos e tornozelos com trancas de ferro, eles são levados para o campo de incineração. Como é de costume, retiramos as estacas antes de queimá-los, pois em seu desespero muitos acabam revelando informações que nos são valiosas. Eu apenas não sabia o quanto as informações de hoje me atingiriam.
Assim que as estacam atingiram o chão, dois pares de olhos rubros encontraram os meus e, em uníssono, urraram: “Viu... Strigoi viu”. Em seguida, foram engolidos pelas chamas. Antes que eu pudesse processar o peso daquelas palavras, uma matilha de lobo irrompeu o acampamento: a frente deles, um lobo gigante veio diretamente em minha direção, atirando-me em suas costas enquanto deslocava-se para a floresta. Todo o resto do caminho foi um borrão.
Após 5 minutos (ou talvez tenham sido 5 horas) de inconsciência, desperto para me encontrar do lado de fora de uma caverna sentada sobre meus tornozelos, que estavam amarrados junto aos pulsos. Olhando-me, estavam centenas de pessoas e lobos. Quando as nuvens começam a desvanecer, confirmo o que eu já esperava: seus olhos, antes de um vermelho vibrante ocultados pela escuridão da floresta, agora, com a sombra da lua, brilham com íris prateadas. Estou cercada por strigois. O lobo maior avança e, no próximo passo, já possui aparência humana. É um strigoi transfigurador. Ele promete me desamarrar caso eu não tente fugir. Com as cordas soltas, vou massageando os pulsos enquanto escuto-o falar:
- Finalmente você está conosco, Ravenna. Sei que você está confusa, por isso tentarei explicar-lhe tudo da maneira mais simples o possível. Diferente do que lhe ensinaram nesses anos, um strigoi viu não é alguém vivo que foi amaldiçoado a se tornar uma criatura sobrenatural depois de morto. É um híbrido, o filho de um strigoi com uma humana, que recebeu a honra de tornar-se um strigoi após a morte. Está na hora de despertar a strigoi que você nasceu para ser e ocupar o seu lugar ao nosso lado, filha.
- Filha? Não, você está enganado! – luto para colocar coerência em meus pensamentos – Eu sou uma caçadora, e não uma anomalia. – A repulsa com a qual crispo a última palavra deixa claro que eu não aceitarei aquelas mentiras.
- Ravenna, você não pode se preterir assim. Deve sentir que hoje, no seu 16º aniversário, o seu corpo clama pela transformação, pois os nossos poderes lendários logo serão muito fortes para o seu corpo humano frágil. Não te resta opção além de se unir a nós. Desde o momento em que você deixou o acampamento, aqueles que até então juravam protegê-la passaram a caçá-la.
Ele estava certo, e oferecer resistência seria inútil; eu era uma Cruz de lenho no meio de centenas de strigois. Por isso, aceitei o treinamento aplicado pelo meu pai e me dediquei a aprender tudo que pudesse para usar contra eles quando chegasse a hora. Os strigoi descobriram o novo acampamento da Cruz de lenho e o ataque está marcado para a noite de segunda-feira, o dia da Lua. Então, na tarde do ataque, utilizo a técnica que aprendi para ficar invisível e consigo me esconder, preparando-me para contratacar. Uma hora após os strigoi terem marchado para o massacre, volto a ficar visível apenas por tempo suficiente para sentir a transfiguração começar. Lentamente, meus olhos se adaptam melhor à escuridão e asas surgem em minhas costas. Minha forma animal é a de um corvo. Levantando voo rumo às estacas que me esperam.
As labaredas que envolvem o local indicam que a batalha já terminou, e isso significa que eu estou atrasada, mas não irei desistir de minha meta. Mesmo que tenhamos perdido, ainda há alguém que eu posso – e preciso – salvar, e é com o rosto de Brianna em minha mente que eu alço voo e me lanço às chamas. Embora o fogo seja altamente letal para um strigoi, não posso abandoná-la. Minha transfiguração em corvo seria o suficiente para que eu passasse despercebida entre os caçadores, já que não tínhamos conhecimento de transfiguração nesse animal, mas isto não é necessário, já que o acampamento está destruído. Meus olhos faíscam quando, entre os destroços, avisto minha mãe presa a uma coluna. Eu sabia que, sendo meu pai, ele iria poupá-la.
Ravenna. O meu nome, que alude tanto a negro quanto a corvo, já indicava que um dia eu me tornaria um deles. Hoje sou uma junção dos dois, prestes a iniciar uma nova vida fugindo tanto de strigois quanto de caçadores da Cruz de lenho junto com a ex-comandante deles.
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