quarta-feira, 5 de outubro de 2016

[CRÍTICA] 12 HORAS PARA SOBREVIVER: O ANO DA ELEIÇÃO

12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição
Lançamento: 06/10/2016
Elenco: Frank Grillo, Elizabeth Mitchell, Mykelti Williamson, Terry Serpico, Joseph Julian Soria
Diretor: James DeMonaco
Distribuidora: Universal Pictures
Nota: ★★
Crítico: Paulo Teixeira

Vou fazer uma proposta aqui: Essa resenha vai ter duas partes. A primeira parte é pra você, amigo de bem, moça trabalhadeira, pessoas não binárias e de gênero fluido e seus respectivos pets que buscam um filme apenas para se divertir e se desconectar com o mundo lá fora. (ok people, não levem seus pets no cinema, ok? Ok.) Pra você, o papo é reto: 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição – ou pra deixar mais simples, The Purge 3 – é um filme divertido sim. Dá pra você gastar umas duas horas da sua vida descerebrando assistindo o filme que, embora não seja lá um primor das obras de thriller de ação (um resquício da era dos filmes de Black Exploitation, onde os nigga mandava bala pra tudo que é lado e um festival de sangue, gore e frases de efeito pulavam em cima de você mesmo sem 3D) é bacanudo, tem cenas chamativas, algumas gags divertidas e um plot bem promissor. É o terceiro da série, mas você pode assistir sem ter visto os dois anteriores tranquilo – como eu fiz – que a história é redondinha e compreensível. Dessa nova leva de filmes que se propõe a uma ação chocante e longe do mainstream dominado pelos filmes de heróis – quase o meio de campo entre filmes A e B – serve um resultado chamativo e que pode te cativar bastante durante sua hora no cinema. Esse é o fim da primeira parte da resenha. Se suas respostas foram respondidas aqui, você pode largar a resenha agora. Manda aquele like generoso e compartilha pros amiguinhos da rede social, ok? Porque na segunda parte, a coisa fica mais séria. E a resenha, mais violenta.





Vou colocar aqui bem claro os pontos de vista que norteiam minha crítica: Eu não sou um estudante – ou estudioso – do cinema. Não estudei nenhum curso técnico, profissional ou superior da área. Eu sou gente como a gente. Minha opinião é simplesmente a opinião de quem viu muito filme, sabe mais ou menos como são feitos e como poderiam ser feitos, e principalmente, escritos.       Os pontos que me estimulam a falar bem ou mal de um filme são: Diversão proporcionada (em 1º lugar absoluto), qualidade da produção, trilha sonora, qualidade de roteiro e, não menos importante, honestidade da proposta. E The Purge 3 é um filme muito, mas muito desonesto.




Desde antes da chance de poder resenhar o filme, o plot já havia me chamado muito a atenção: Os estados unidos num futuro próximo, no auge de sua decadência moral, institui uma noite para liberar os demônios pessoais de todos os cidadãos, a “Noite do crime” (no original, The Purge Night) onde todos os crimes são permitidos durante 12 horas – salvo os políticos, que não podem até o começo do filme ser alvo destes – que funciona bem como a “hora do ódio” de George Orwell (nunca leu 1984? Vá corrigir este erro após a resenha, ok?), uma catarse profunda que acalma os ânimos dos cidadãos, além de um método eficaz de estimular a venda de armas e proteção particular. Isso freou uma recessão americana, diminuiu criminalidade e desenvolveu o país a um custo moral inacreditável. Daí segue a história. Só numa olhada rápida nós vemos uma boa e concisa distopia que não precisa apelar para aqueles clichés escrotos – uma super tecnologia que consegue moldar partículas, mas não dá jeito que desenvolver plantações e produção alimentar? Qual é né? – e comuns em obras recentes. Uma critica mordaz a sociedade americana (e porque não, mundial?), que, em seus primeiros filmes, conseguiu chamar a atenção de uma maneira deliciosa mesmo sem um orçamento gritante. Uma pérola entre tata bijuteria, que foge do 1+1 de protagonistas branquelos que salvam o dia, personagens de minorias clichês e que tem coragem em sua narrativa. E eu realmente caí nessa. Mas o filme não é isso.




O big deal está dividido no filme inteiro, e você pode facilmente passar desapercebido da questão. Mas está tudo lá. Começando pela parada mais óbvia: O protagonismo é descaradamente branco. E o pior disso é tentarem maquiar isso com personagens cota que conseguem brilhar por alguns instantes na tela, mas não fazer absolutamente p**** nenhuma o resto do filme. E eu não estou exagerando. Somos apresentados a uma personagem feminina durona e perigosa que, após um tiroteio, mal aparece em cena – nem como piloto de fuga. Um chicano que busca uma nova vida na América, durão e batalhador, mestre do rifle, mas que só parece disparar umas 3 vezes no filme inteiro. E um “protagonista negro que tem um passado perigoso” – sendo que a porcaria do passado misterioso surge do nada, serve apenas em uma cena e absolutamente mais nada que isso. Este mesmo personagem, diga-se de passagem, parece carregar uma camiseta com seu destino escrito enquanto despeja um sem número de frases de efeito capengas e estereotipadas. E não para só no protagonismo – que, na boa, é todo carregado pelos personagens brancos da trama, Leo Barnes (Frank Grillo, numa carranca imutável o filme inteiro) e a senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell, uma lindeza encarnada que parece estar no filme apenas para correr atrapalhada e encher o saco de Barnes por motivos não compreensíveis) – A vilania da parada é em vários momentos empurrada com a barriga, sem profundidade nenhuma. De paramilitares com bandeiras de “whitepower” (uma alegoria que no filme nunca é usada de verdade) à jovens revoltadas vestindo minissaia com metralhadoras e glitter, com direito a russos psicóticos, todos tem a personalidade com a profundidade de um pires furado. Subutilizados, subestimados, sempre criando uma tensão que na maioria das vezes não chega a lugar algum.




A direção do filme (James DeMonaco, que também escreve e dirigiu os filmes anteriores da franquia) também peca feio na escolha da montagem do filme. Nem tanto pela fotografia – em alguns momentos curiosa e chamativa, principalmente nas cenas de assassinatos que o grupo presencia de longe, que misturam constantemente elementos paradoxais como músicas de ballet e gente morta, em outros confusa e entediante, criando cenas desnecessariamente longas ou dificultando a compreensão das mesmas. O filme, que em seu primeiro terço se apresenta como um thriller de suspense, navega trupicando no que deseja ser. Hora quer ser ação desenfreada – e tem o potencial pra isso – mas corta o ritmo interminavelmente para criação de sua trama de suspense – apenas para pular o ritmo mais uma vez entre drama, thriller psicológico, ação de novo e umas tentativas meio pífias de criar tensão. A cena das schoolgirls do capeta é um bom exemplo (além de cliché, ligeiramente sexista e incongruente.)




The Purge 3 tinha claramente o potencial de ser muita coisa – e tentou ser todas elas, não conseguindo êxito em nenhuma. É uma falha enorme que, aliada a tentativa de se vender como um filme transgressor, mas que no fim repete um sem número de fórmulas batidas e cansadas, personagens fracos sob uma maquiagem oportunista de protagonistas secundários e um final trágico totalmente previsível e que desmerece bastante a experiência. Não que nada no filme seja bom. Vários elementos interessantes estão presentes; A química entre Grillo e Mitchell é muito grande e não apela para elementos românticos – balas voando e nenhuma DR é um prazer de ver – e o argumento do filme é sem dúvida chamativo e faz pensar. No fim, parece aquele cozido que passou do ponto e deixou um gosto amargo no final. Uma pena. Deu a impressão que Hollywood estava pronta pra coisa nova. Mas não foi dessa vez.

Veja o trailer abaixo:



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